Por que às vezes parece que tanto faz?
Sobre preferências que só aparecem depois que a escolha já foi feita.
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“Por mim, tanto faz.”
É uma frase que se diz várias vezes por semana, sem nenhum peso. Vem em variações — pode escolher você, o que você preferir, por mim está bom.
E costuma ser dita com sinceridade. Descreve o que a pessoa encontra quando olha para dentro naquele instante: nada suficientemente acessível para virar resposta.
O restaurante. O filme. O destino das férias. O que fazer no sábado. Perguntas aparentemente pequenas, que ainda assim pedem uma posição.
Quem escuta costuma ler isso como facilidade. Quem diz, com o tempo, costuma ler como defeito: eu sou indeciso, eu não tenho opinião, eu sou chato assim.
Nenhuma dessas leituras descreve o que acontece no instante da pergunta.
Porque ali nem sempre há vazio. Há atividade — rápida, e dirigida para fora.
Dizer o que se quer depende de uma condição que nem sempre esteve disponível: a de que uma preferência possa ser conhecida sem consequência.
Quando expressar uma preferência foi, com alguma frequência, acompanhado de atrito — um desapontamento, um silêncio incômodo, uma mudança de expressão que ninguém explicou —, a atenção pode aprender a trabalhar antes. Passa a ler o ambiente primeiro e, só depois, se houver espaço, a si mesma.
Não é preciso que tenha havido nada grave. Basta que, com alguma constância, tenha sido mais simples concordar do que explicar.
É um aprendizado eficiente. Evita o atrito com antecedência e quase nunca é percebido, porque acontece rápido demais para ser percebido.
Com o tempo, a ordem das operações pode se inverter.
O caminho habitual seria perceber o que se quer, verificar o que é possível e decidir. O caminho que se instala é outro: perceber o que o outro quer, e querer aquilo.
Isso não é fingimento. A pessoa sente mesmo. A vontade do outro chega primeiro e ocupa o lugar antes que a própria tenha tempo de se formar.
É por isso que a pergunta “mas o que você quer?” costuma não ajudar. Ela supõe que exista uma resposta disponível para consulta — e o que há naquele momento é uma consulta já feita, em outro endereço.
Em alguns momentos, não saber também pode proteger alguma coisa. Enquanto não sabe o que quer, a pessoa não pode ser responsabilizada por ter querido. Não decepciona, não disputa, não precisa defender nada depois. “Tanto faz” a retira de uma posição em que poderia estar errada.
Isso não torna a frase falsa. Torna-a útil. E o que é útil não costuma ser abandonado sem substituto.
Convém separar, aqui, duas coisas que costumam ser tratadas como uma só.
Uma é não ter vontade. A outra é não ter acesso a ela.
A primeira existe, e não precisa de explicação. Há momentos em que tanto faz mesmo — a indiferença é uma resposta como outra qualquer, e nem toda escolha pequena esconde alguma coisa.
A segunda é outra coisa: há algo ali, e esse algo não chega à frase.
A diferença costuma aparecer no corpo antes de aparecer na conversa. O alívio desproporcional quando um compromisso é cancelado. O peso que desce ao concordar com um plano que, cinco minutos antes, era indiferente. A irritação por um detalhe pequeno demais para justificá-la. O sim que sai pronto e deixa um resto estranho depois.
Em nenhum desses momentos a vontade foi formulada. Mas em todos ela se manifestou — como reação, e não como escolha.
Talvez seja por isso que perguntar-se diretamente o que se quer produz tão pouco.
A pergunta direta pede resposta no mesmo instante, e é exatamente o instante em que a resposta não está disponível. O que costuma aparecer primeiro não é a vontade: é o rastro dela. O incômodo depois. A lembrança que volta. A frase que ficou por dizer e continua sendo ensaiada no caminho de casa.
Numa escuta sem pressa, esses restos têm tempo de ser ditos. Não porque esclareçam alguma coisa de imediato, mas porque é neles que a vontade costuma circular enquanto não encontra outro lugar.
E há uma consequência que costuma surpreender: o que aparece desse jeito raramente é grandioso. Não é um desejo escondido, nem uma vida inteira que deveria ter sido outra. Costuma ser pequeno e específico — não queria ter ido, queria ter ficado mais, não gosto disso e nunca disse.
Coisas pequenas, mas de um tipo particular: são as primeiras que admitem a primeira pessoa.
Fica a pergunta, que não se responde no momento em que é feita: em que condições uma preferência pode ser dita antes que seja preciso calcular o que ela vai causar?
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O que se ouve quando se para de tentar entender?